Amizade e ecologia, em fábula bem contada

AntonioVanfill acerta a mão ao contar a bonita história de carinho e respeito entre o menino João e a árvore Berenice
 
 A Árvore Berenice é uma daquelas peças para crianças que conseguem contar uma boa história, sem grandes invenciones, sem querer redescobrir a pólvora da dramaturgia. A trama é bem desenvolvida, bem contada, com ritmo, boas tiradas de humor e estofo para prender o interesse do público, que fica o tempo todo querendo saber como aquela história vai terminar. Mérito do autor e diretor AntonioVanfill.

Com inspirações ecológicas, o espetáculo, na verdade, fala de amizade – tanto do carinho de um garoto por uma árvore, como da aproximação fraterna entre os coadjuvantes Moita e Coruja. Numa cidade grande, barulhenta e sem espaços verdes, mais um prédio surge no lugar de uma grande árvore. Em flashback, vamos conhecendo os detalhes dessa triste transformação da paisagem urbana. O menino vai crescendo junto com a árvore e, assim, a peça fala também das várias etapas da vida de um homem - infância, primeiro amor, trabalho, família, passagem do tempo e o inevitável fim.

No papel da árvore Berenice, a atriz Paula Bega cumpre bem as determinações do autor e diretor: ser doce sem ser chatinha, ser triste sem ser melodramática e, sobretudo, imitar os divertidos trejeitos de Carmem Miranda com seus braços-caules. O garoto João é interpretado, na fase criança, por um expressivo ator mirim, de carreira promissora, com exata noção precoce de seu ofício sagrado em cima de um palco. O nome dele é Guilherme Seta, conhecido da televisão pela novela Carrossel (SBT) e pela série Esconderijo Secreto (Discovery Kids).

Mas vale destacar a incrível química entre os coadjuvantes Moita (Igor Pushinov) e Coruja (Leandro Godinho). A dupla funciona muito bem, no melhor estilo trapalhão, remetendo o tempo todo à linguagem de desenho animado. Hilário, por exemplo, é o momento em que ambos protestam por serem meninos e terem nomes no feminino, a moita e a coruja. Completam o elenco Vanessa Prieto e Jerônimo Martins.

Outro ponto positivo vai para os figurinos de Guilherme Catofarani.É muito inspirado o vestido longo que caracteriza a árvore (a fonte foi a obra da estilista inglesa Vivienne Westwood), o casaco com asas do sr. Cotia e a blusa verde do sr. Moita. Peças ricas em detalhes e em criatividade.

As músicas, especialmente compostas para o espetáculo por Sandra Nunes e Bruno Monteiro, são boas e ajudam a contar a história, defendidas ao vivo pelos atores, com playback instrumental. Um pequeno deslize apenas na canção final, cuja letra é explícita e piegas demais, com ranço de lição de moral, querendo arrematar tudo com versos exagerados sobre “o valor da amizade”. Pena. Isso destoa de toda a sutileza das canções anteriores e da concepção geral desse ótimo espetáculo.

Serviço

Teatro Eva Herz
Livraria Cultura – Conjunto Nacional. Av. Paulista, 2.073. Tel.: (11) 3170-4059
Sábados e domingos, às 15 horas (até 20 de outubro). A partir de 26 de outubro: só aos sábados, às 15h (até 7 de dezembro). R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia entrada).
 
Fonte: Revista Crescer